Como num Filme – Antônio Gil Neto – Memórias literárias – 8° ano

Publicado: 25/08/2011 em JMJ - 2011, Propostas de Escrita

Para ouvir as memórias: “Parecida, mas diferente” – Zélia Gatai : http://www.biblioteka.hd1.com.br/mp.ht

Para ouvir as memórias: Transplante de menina – Tatiana Belinky – http://www.biblioteka.hd1.com.br/mp.htm

Para ouvir as memórias: Por parte de pai: http://www.biblioteka.hd1.com.br/mp.htm

Para ouvir as memórias “Como num filme” entre no site: http://www.hjm.xpg.com.br/mp7.htm

Intertextualidade texto: “Como num filme” – Trem das onze – Adoniram Barbosa – http://www.youtube.com/watch?v=ceBdGz3eTFg                  http://www.youtube.com/watch?v=T1C8eJmVdB0&feature=fvsr 

Não foi difícil cair nas graças de Seu Amalfi. Direto, sincero, amoroso, foi logo falando de sua vida, com um jeito meio solto, especial, como quem vai montando uma seqüência de cenas em nosso pensamento. De início, estáticas e em preto-e-branco, e, aos poucos, em impulsos coloridos. Depois de uma ou outra pergunta, quase nem precisei falar mais nada. Apenas ouvir, entregar-se à brincadeira da memória era o que bastava.Ele foi contando, contando e imagens foram se instalando em mim como quem entra em um filme.

“Esse cheirinho de café pendurado no vento leve conduz a meu tempo mais antigo.                                        Pensei ouvir bem baixinho um fiapo de uma canção napolitana e tudo veio à tona. Logo lembrei-me de minha mãe torrando café, fazendo o pão, a macarronada. Bem que procuro não pensar muito para não marejar os olhos. O começo de tudo foi na Itália. De lá vieram meus pais. Fugidos do horror da guerra, acabaram por fazer a vida aqui em São Paulo, onde nasci.

É a partir dessas lembranças que minha cabeça parece uma máquina de fabricar filmes.

Recordo muita coisa. Não só do que minha mãe contava, mais ainda das que eu vivi.

Lá pelos idos de 1929, com cerca de sete anos de idade, era menino feito. Minha vida era um misto de cowboy com Tarzan. Onde hoje fica o Shopping Center Norte era só mato, água e muita, muita terra. Era lá meu paraíso. Meu e dos meus amigos: o Vitorino, o Zacarias… Vivia para jogar futebol, nadar, pescar e caçar passarinhos.

Uma brincadeira de que gostávamos muito era “chocar o trem”. Sabe o que é isso?

Era subir rapidinho no trem em movimento. Ele andava bem devagar, é claro, levando pedras da Serra da Cantareira para construir a cidade. Com o tempo seu trajeto se encheu de bairros: Tucuruvi, Jaçanã, Vila Mazzei, Água Fria e mais o que há agora. Lembra aquela musica do Adoniran? Tem a ver com esse trem…

Da escola não gostava tanto. Não era um bom aluno, mas era esperto, vivido. Isso sim. O que acabava ajudando em muitas situações… Em um abrir e fechar dos olhos da memória lá estão a escola, o corre-corre das crianças e todos eles, intactos e em plena labuta do dia: Dona Albertina, Dona Isabel, Seu Luís, os professores. Ainda o Seu Peter, o diretor, e Seu Luigi, o servente. Quantas vezes em meio à cópia da lousa, que seguia plena em silêncio e dever, disparava um piscar enviesado para meus companheiros de time. Quebrávamos as pontas dos lápis e com o descaramento e a falsa pretensão de deixarmos todos eles apontadinhos para a letra ficar bem desenhada e bem bonita nas nossas brochuras, lá íamos nós, atrás da porta e com a gilette em punho, armar em cochichos a melhor estratégia para o próximo jogo. Tudo lorota!

Meio moleque, meio mocinho, sempre dava algum jeito de arranjar um dinheirinho para ir à Voluntários, uma das poucas ruas calçadas do bairro, nas matinês do cine Orion.

Meu figurino era feito por minha mãe: uma camisa clara, bem limpa e passadinha com ferro de brasa. Com meus colegas ia ver o que estava em cartaz. Bangue-bangue era o melhor. Lembro-me do BuckJones, do Rin Tin Tin, do Roy Rogers e mais uma porção daqueles bambas do momento. Também me recordo do cine Vogue e de Seu Carvalho, seu dono e operador, que, ao constatar a enorme fila na bilheteria, dizia para nós, garotos, com certo orgulho solene, só haver lugares em pé. Entrávamos mesmo assim. Depois de alguns minutos já tínhamos nossos lugares escolhidos e… sentados. No escurinho do filme começado, queimávamos um barbante malcheiroso que fazia todo mundo desaparecer de nosso lugar preferido. Comédia pura, não é?

Com o passar dos anos, veio o tempo do trabalho para valer. De aprendiz de químico tornei-me o titular na fábrica de perfumes dos libaneses. Fiz de tudo lá: brilhantina, rouge, pó-de-arroz, produtos muito usados na época. Veio também o tempo do namoro sério e, com ele, o cinema com sorvete a dois. Minha vida era um filme de aventuras, mais que outra coisa. Tive de vencer muitos obstáculos. E foi um bom tempo assim.

Construir uma família não é fácil, mas, como se sabe, o amor sempre vence.

Como nos filmes de amor, acabei me casando em technicolor e em cinemascope, como um galã, com minha Mercedes, mais bonita que Greta Garbo ou qualquer outra estrela de Hollywood. Com ela comecei a freqüentar o centro de São Paulo. Íamos de bonde elétrico, descíamos na Praça do Correio e andávamos de braços dados pelos pontos mais elegantes da cidade.

Misturados aos carros que pertenciam a gente muito rica, estavam os cabriolés, uma espécie de carroça puxada a cavalos… Na Avenida São João estavam os melhores cinemas: o Marabá, o Olido, com seus camarotes e frisas. Quantos filmes! “O Canal de Suez”, “O Morro dos Ventos Uivantes”, “E o Vento Levou!”. Vejo-nos direitinho, como em um musical indo para a cidade de bonde. O condutor, o Delmiro, mais parecia um bailarino, um Fred Astaire tropical, por conta dos trejeitos, malabarismos de corpo que fazia ao parar, descer, cumprimentar, receber as pessoas, acomodá-las e, enfim, conduzir o bonde.

Era mais que um motorneiro. Esse era um show à parte!

Se bem me lembro, o cinema me acompanhou a vida inteira. Isso porque sou do tempo do cinema mudo, veja você, onde os violinos e o piano faziam nossa imaginação ouvir as vozes e sentir as emoções dos artistas que passavam rápidos nas telas. Depois veio o cinema falado e para nós isso era a maior e a melhor invenção. Olhando para o que se passou, constato que fui um bom freqüentador das telas. Com chuva ou com sol!     Até nossa primeira filha, com poucos meses de idade, não impedia nossa diversão preferida! Era nossa figurante proibida. Íamos ao Bom Retiro, ao cine Lux. Lá eu conhecia todo mundo e sentávamos com a menina nos braços bem na ultima fila, caso precisássemos sair às pressas para acalmar um choro repentino. Assistimos a tantas histórias e nossa menina dormia profundamente. Quase sempre.

Talvez por conta de trabalho, das exigências da vida, dos cuidados com a família e mesmo com a facilidade da televisão, acabei me dando conta de que fiquei muito tempo sem ir ao cinema. Engraçado, agora que estou praticamente sozinho, em conseqüência das perdas que a vida nos traz, o cinema volta com toda a força. Não perco quase nada do que passa nos shoppings perto de casa. Tudo é mais confortável, imenso. Mas tudo é mais barulhento, apressado e real demais. Não sobra muito tempo para sonharmos.

Mesmo assim, quero ir a outros cinemas desta cidade que cresceu e cresce tanto. O jeito é me armar de um celular para que minha filha não fique tão preocupada comigo por causa dessas minhas novas aventuras cinematográficas.”

Quando releio o que está escrito, não sei onde está o que o Seu Amalfi me contou e onde está o que projetei de sua vida em mim. Engraçado mesmo! Perdi-me nos labirintos da imaginação, onde o presente e o passado se fundem em um só desenho. A memória brinca com o tempo, como em um filme, como uma criança feliz.

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comentários
  1. Isabella Fernandes. 8 A disse:

    Eu gostei muuuito do amor dela pelo cinema, desde o tempo do cinema mudo até hoje. E essa ‘paixão’ nunca passou, mesmo depois de anos, uma filha já crescida, ela continua amando o cinema, teatro as histórias.. etc. e os comentários que ela faz sobre antigamente, sobre o que ela fazia na infância é muito legal também.

  2. Ana Flávia 8º ano A disse:

    Boa tarde professora.

    – Primeiro, eu ouvi a música de Adoniram Barbosa// Trem das onze, e reconheci de primeira. Meus pais e avó admiram muito esse artista e suas músicas.
    Falando em memórias… meus parentes dizem que essa música os traz bastante memórias, de como a cultura do Brasil era diferente, de quando coisas aconteceram em suas vidas e o quanto aprenderam, enquanto essa música tocava nos rádios.
    Não entendi em qual sentido, você pediu que comentássemos sobre a importância das memórias em nossa vida. Mas acho que deve ser essa… aprender com o que aconteceu, lembrar das dificuldades e dos obstáculos vencidos.

    – Segundo, achei bastante interessante a história do sr. Amalfi, sobre a evolução do cinema.. de como a vida e o “mundo” do qual ele vivia mudou, mas que a paixão pelo cinema permaneceu.

    Então é isso, Ana F.

  3. Amanda (8º ano A) disse:

    No texto “Como num filme” cita a história do Seu Amalfi que é um homem cheio de lembranças dentro da sua imaginação. Quando o narrador pergunta ao Seu Amalfi como era a história de sua vida, aos poucos ele foi criando a vaga lembrança da sua infância até hoje. Ele fala que não gostava de escola, fala que o cinema antigamente, era mudo; sem cores; e os sons eram feito por um simples violão.
    No final do texto, Seu Amalfi compara as memórias com a imaginação, essa afirmação para mim é totalmente verdadeira, pois a memória vai se criando com a imaginação formando cada momento os tornando especiais e a cada momento ela brinca com o tempo.

  4. Bruna Oliveira(8º ano A) disse:

    Após a leitura do texto ”Como num Filme”,percebemos as diferenças entre o passado e o futuro.Essas diferenças estão quando o narrador começa a entrevistar seu Amalfi.Seu Amalfi começa a relembrar seu passado,e conta sua história aos poucos até chegar nos dias de hoje.
    Seu Amalfi conta sobre os amigos,sobre as travessuras que faziam,a escola,sobre o namoro,e como gostava do cinema,e até mais pra frente conta sobre a filha que teve.
    E nesses pontos relacionamos a importância da memória em nossa vida,sim ela é muito importante, e nos faz relembrar os melhores momentos de nossas vidas,e os que erramos serve como lição para não acontecer de novo.E isso sim que faz a memoria muito importante.

  5. Aristides disse:

    O texto “como num filme´´ e,basicamente, a historia de um senhor chamado Amalfi,senhor Amalfi que era um antigo diretor de cinema,quando o cinema ainda era mudo e em preto e branco assim,seu Amalfi vai contando ao narrador que o entrevista praticamente a historia de sua vida,travessuras quando era pequeno,os amigos que tinha,seu amor pelo cinema que era,sobre seu namoro,e ate conta dobre sua filha.
    E nessas horas que nos, a juventude descobrimos o valor de umas boas lembranças,boas memórias, pois ao escutar uma historia contada por alguém mais velho,estamos aprendendo cada vez mais e acabamos nos cativando a historia e vivendo-a em nossa imaginação e por isso devemos sempre dar valor a uma boa historia pois um pode ser que nos, a juventude de hoje estejamos contando ela para alguém mais jovem no futuro.

  6. Joao Vitor Ferreira de Melo 8 ano A disse:

    Gostei muito do texto. Apósa leitura do texto , indentificamos a diferença do passado e do futuro.
    Seu Amalfi conta sobre os amigos,sobre as travessuras que faziam,a escola,sobre o namoro,e como gostava do cinema,e até mais pra frente conta sobre a filha que teve.

  7. Izabel (8° ano B) disse:

    Achei o texto ótimo!
    Textos de memórias como esse, são bons porque, lendo-os, conseguimos descobrir coisas do passado que hoje nem existem mais, ver como era o ritmo de vida das pessoas. Um exemplo disso é justamente o fato de o senhor Amalfi frequentar o cinema, sempre, desde pequeno.
    Hoje em dia as pessoas não têm tempos para ficar assistindo filmes, hoje o tempo corre mais rápido para todos, hoje as pessoas só estão pensando em ganhar mais dinheiro… Elas não se lembram de viver a vida assim com o senhor Amalfi fazia.

  8. Eduarda Carvalho (8 B) disse:

    Gostei muito do texto, apesar de ter que ler 3 vezes pra entender tudo direitinho. Aprendi que, o autor, através do texto, nos ensina o quanto a mémoria nos ajuda a lembrar do passado e o quanto relembrar certos momentos nos ajuda a crescer.
    Seu Amalfi conta ao narrador que está o entrevistando coisas de seu passado e como adorava aqueles tempos – sair com os amigos, o que faziam juntos, namoro, cinema, tudo o que hoje ele sente uma grande saudade.

  9. Ana Beatriz - 8°ano B disse:

    Gostei muito do texto! O modo como ele descreve como era sua vida na infância faz com que a gente queira imaginar cada vez mais aquela época. O amor dele pelo cinema é muito interessante, um amor que dura desde criança até hoje, onde já tem uma família formada. Outro fato interessante é como ele mostra a evolução do cinema que antes era preto-branco e mudo, e hoje já é tão diferente.

  10. ingrid disse:

    ingrid(oitavo B)
    Gostei muito do texto Como um filme , por ser um texto de memorias que nos da a possibilidade de saber como era no tempo que seu Amalfir era criança.As brincadeiras ,como era o cinema da época , e outras coisas.

  11. Viinicius Crosara 8 ano B disse:

    O texto mostra com era o cinema na epoca em que seu Almafir era apenas uma criança suas brincadeiras que ele e seus amigos fazian no cinema para tirar as pessoas da sala pois na epoca em que o cinema era preto e branco.
    Nao tinha com deixar seu lugar marcado.
    Era por orden de chegada.

  12. bruna de almeida macedo disse:

    Gostei de muito de ler o texto “Como num filme”, pois mostra como era a vida das pessoas antigamente, que não ficavam presas a tecnologia como hoje em dia. Como o seu Amalfi, que conta como eram suas brincadeiras, de como era bom assistir ao cinema mudo podendo imaginar as vozes e emoções dos artistas.

  13. Dianna Moreira Mendonça disse:

    Esse é um otimo texto pois conta sobre a infância de Amalf, das brincadeiras de sua época e de como as coisas mudaram, conta o amor que ele teve pelo cinema a sua vida toda, e mostra como o locutor do texto se emociona e recorda de sue passado a partir das lembranças de seu Amalf, que nos são incríveis e divertidas

  14. Mayra Gomes disse:

    Estou no 8° ano , e vamos participa das olimpiadas de português , e a 6 e 7 serie , vão fazer redações de memorias , e esse texto a professora leu em classe , com a gente , e pediu para eu dar continuidade no textos , então simplesmente eu li o texto toda sozinha para a classe , e eu amei esse textos , pois me deu varias ideias de como fazer o textos , e hoje meu texto ja esta feito , e amanhã eu tenho que entrega para a professora. Silvana esse e o nome da minha professora ela me ensinou muito , e vou levar lições que aprendi com ela , vou levar cada conselho na minha memoria , essa sim e uma professora de Português

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